08 de Junho 12:48
A falta de oposição política faz mal ao governo, ao PT e ao Brasil

Impotentes diante da dura realidade de terem sido abandonados pelo “povo” que pensavam ser apenas gado seu que se reúne de tempos em tempos nos rodeios (eleições), os anti-PT se ouriçaram diante da possibilidade de, num passe de mágica, voltarem a ter um poder que o povo, antes pacato e ordeiro, lhes subtraiu ao negar-lhes o direito de colocar o cabresto (do voto).

Dentro do contexto do vazio político da oposição brasileira, o episódio – que jamais será esclarecido, mas que demonstra de modo indubitável que o excessivo pragmatismo lulista pode acabar fazendo mal ao próprio PT – serviu como uma luva para que os “sem voto” se sentissem outra vez tentados a sonhar com um golpe a lhes proporcionar a retomada do poder.

Ao orquestrar uma ação de pressão supostamente da sociedade sobre o STF e assim forjar o julgamento do chamado “mensalão”, a mídia conseguiu o intuito – mas também abrirá brecha para que o chamado mensalão tucano de MG entre na pauta. E, além disso, está sendo prometido um livro contando a verdade sobre a chamada “Lista de Furnas” – algo que poderá enterrar definitivamente as ambições eleitorais de muitos.

Estas pessoas ainda não se deram conta de que vivem em um regime democrático, onde o voto é o único instrumento para a alternância do poder. Já escrevi várias vezes o imenso malefício que é para o País a ausência de uma oposição política – com capacidade de formular uma crítica política e apontar caminhos para avançar no processo de democratização da sociedade como um todo.

O equívoco dos oposicionistas foi o de aceitarem ser porta-vozes dos interesses de segmentos totalmente dissociados da sociedade. E hoje pagam o preço desta opção nos votos que escasseiam, levando à inanição partidos de apoio, sem definição ideológica.

O PT, ao migrar para o centro e flertar despudoradamente com a “meia direita”, ocupou o espaço que os tucanos pensavam ser cativo seu. O PT é hoje o que foi, em termos embrionários, o PSDB quando das primeiras reuniões durante a Constituinte – o chamado MUP (Movimento de Unidade Progressista).

Acompanhei muitas daquelas reuniões, realizadas depois de extenuantes sessões da Constituinte – geralmente no apartamento “funcional” do então deputado federal Vilson Souza (SC). E lá estavam Nelton Friedrich (PR), Vicente Bogo (RS), Hermes Zanetti (RS), Francisco Kuster (SC), Dirceu Carneiro (SC), Nelson Wedekin (SC), Mário Covas (SP), Jutahy Magalhães (BA), Arthur Hage (CGU), Cristina Tavares (CE), Ana Maria Rates (RJ), Sigmaringa Seixas (DF) – entre tantos outros nomes.

O PSDB, e lembro que participei do seu primeiro Congresso aqui em Brasília, tinha uma proposta social democrata clara e definida. Quando chegou ao poder, abandonou aquele ideário de centro esquerda e ficou seduzido pelo neoliberalismo e acabou se acomodando na direita – junto com o Demo, o PPS, algumas unidades estaduais de siglas como PV, PTB, PMDB e uma ratatulha que se esconde por detrás de siglas. Pode soar estranho agora, mas Mário Covas teve de fazer um pronunciamento na tribuna do Senado para deixar claro que a proposta dos tucanos de então não se guiava pelo ideário marxista.

Movimento semelhante aconteceu com o PT.

Ao chegar ao poder em janeiro de 2003, a sigla, até por necessidade política, aceitou o jogo do fisiologismo, da troca de favores. Deu continuidade a práticas deploráveis que haviam sido normas nos dois mandatos de FHC.

Ao optar por não fazer nenhuma ruptura, o PT foi caminhando a passos largos para o centro – assumindo boa parte das bandeiras originais dos tucanos, ocupando um espaço que estava vago.
E hoje o Brasil enfrenta um processo hegemônico que considero perigoso, não por atentar contra qualquer liberdade, mas por conta da ausência de qualquer proposta política alternativa. E este vazio se verifica tanto para a direita (onde estão aninhados tucanos, demos e assemelhados), quanto para a esquerda, onde não temos nada.

Seria importante para o Brasil que os grupos políticos deixassem de se portar como marionetes de grupos para tentar construir um discurso propondo alternativas ao embate maniqueísta, propondo avanços sociais e de mudanças no “fazer” política.

Ficar centrado no discurso pseudamente ético é de uma pobreza abissal, afinal de contas, os dois lados se engalfinham em redes sociais, inflando o peito para dizer: o seu é mais corrupto que o meu. Este é o absurdo de nossa realidade política, da pobreza aviltante de nossa oposição e, também, da nossa situação.

Estamos, ao menos esta é a minha convicção, pagando o preço da destruição causada pela ditadura militar, que ceifou do Brasil e dos brasileiros o direito de pensar, o direito de formar e construir novas lideranças. O que temos hoje são rebotalhos familiares – figuras sem expressão e sem compromisso, tipos do porte de um ACM Neto, Rodrigo Maia, Aécio Neves, Eduardo Campos, Pedrinho Bornhausen, Richinha e outros que não construíram uma trajetória de vida, mas se valem de um pseudo DNA e que jamais significará capacidade política.
E este vazio vai atingindo todos. De modo indistinto.

Aqui mesmo no DF, o caciquismo do PT teve que “importar” um candidato porque não tinha entre seus quadros ninguém qualificado para o cargo e as alternativas disponíveis não convinham ao chamado campo majoritário. Se olharmos, a própria Dilma é muito mais uma pedetista do que petista – porque a sua formação se dá dentro deste contexto político.

A proximidade do processo eleitoral de 2012 deveria ser um momento de crescimento, mas o que se “anuncia” em termos de coligações mostram que os partidos brasileiros continuam cada vez mais interessados apenas na lógica perversa da conquista do poder. Ou alguém, de sã consciência, considera razoável politicamente e saudável para o país alianças como do PT com o Demo; o PT com o PSDB; o PCdoB com o PP – sem contar outras bizarras combinações diabólicas?

O que mais me assusta, apavora e me deixa indignado é que os chamados “caciques” absorvem e abençoam estas sandices de olho na ocupação e conquista de “máquinas” – deixando claro que ainda estamos muito longe de ter em nosso País uma classe política. O que nós temos são pessoas que usam a política, através dos partidos, como forma de enriquecimento.

Do que tenho extrema clareza é que esse tipo de circo está cansando, mas não será com factóides ou armações que a oposição conseguirá reverter uma situação que, insisto, tende a se agravar. Para romper este quadro de pobreza política em termos de projetos nacionais, a oposição deve acordar para a realidade e se dar conta de que precisa, com urgência, voltar a fazer política.

Lembro-me, assim, sempre do MDB. Foi oposição durante todo o regime militar. Lutou dentro dos limites de suas possibilidades, mas nunca foi capaz de formular uma proposta para o País, nunca teve capacidade e nem ousadia de construir um projeto de poder. Achava que com o fim da ditadura, que um dia tudo cai!, o poder sobraria naturalmente no seu colo. Não se deu conta de que precisava de algo mais do que a memória do passado, de uma mística de resistência e de luta contra tempos de obscurantismo, de morte e dor.

É esta a minha visão sobre a oposição, que pelo processo político natural da democracia, voltará a ser situação – um dia. Mas terá de ter um “discurso” diferente para o País, não apenas o apego a um roseiral “ético”, tema pegajoso e do qual a oposição também precisa de distância.

Se o PT teve de reciclar seu discurso e abandonar velhos dogmas para chegar ao poder, o mesmo terá de fazer a oposição – do contrário sempre irá fornecer munição contra si própria. Afinal de contas, para cada escândalo do PT, há um similar do governo FHC. Para cada derrapada ética do governo atual, haverá uma no passado.

A oposição precisa olhar o futuro, inclusive tendo a coragem de fazer o “mea culpa” do passado. Se não tiver esta capacidade de fazer política, ela continuará tendo espasmos de estranho e pontual prazer como agora, neste episódio envolvendo as versões divergentes entre Jobim e Gilmar, acerca de uma conversa com Lula.

Sinceramente eu torço para que a oposição volte a fazer política. O Brasil precisa. O governo precisa. E diria até que a falta de oposição política está fazendo mal para o PT.

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